Artigo · 22 de set. de 2026
Quem são os diretores brasileiros que você ainda precisa conhecer?

Há alguns anos, um grande produtor de São Paulo contou a Marcus Ligocki Jr. uma história que ele nunca esqueceu. Ele havia participado de um jantar com um dos principais produtores de cinema independente do mundo e queria apresentar a ele o cinema brasileiro, abrir uma conversa e mostrar que havia no Brasil realizadores com quem o mercado internacional poderia trabalhar. Queria, inclusive, conversar sobre um projeto em potencial. Antes que pudesse apresentar qualquer nome, porém, ouviu uma resposta que não esperava: “O Brasil tem três diretores e nenhum deles me interessa. O que mais você tem para me oferecer?”
Anos mais tarde, Marcus se deparou novamente com a dimensão prática daquela percepção. Em uma oportunidade, foi convidado para produzir um filme sob uma condição específica: o diretor deveria ser brasileiro e ter um nome relevante no mercado global. O projeto acabou não acontecendo porque nenhum dos três nomes mais cotados naquele momento estava disponível. A coincidência entre as duas histórias chamou atenção justamente porque revelava algo maior do que uma dificuldade pontual de produção. Se, para determinadas pessoas e estruturas do mercado internacional, o cinema brasileiro parecia estar concentrado em poucos nomes, o que acontecia com todos os outros realizadores que produziam no país?
O Brasil tem muito mais do que três diretores. Tem uma produção extensa, diversa e espalhada por diferentes regiões, com cineastas de trajetórias longas e outros que estão começando agora, realizadores que trabalham com grandes histórias e outros que encontram sua força nos detalhes, no cinema de gênero, no documentário, no drama, na comédia, no cinema social ou na experimentação. Há diferentes formas de fazer cinema, diferentes experiências de vida e diferentes maneiras de olhar para o país. Talvez, então, aquela frase dissesse menos sobre o cinema brasileiro do que sobre o quanto dele consegue chegar até quem está olhando de fora.
O que chega até nós
Quem está do outro lado de uma fronteira conhece, em grande parte, aquilo que consegue atravessá-la. No cinema, essa travessia depende de uma cadeia que começa muito antes de um filme chegar a um festival, a uma sala de exibição ou a uma plataforma. Um diretor pode ter uma história importante para contar e uma visão muito particular sobre como contá-la, mas ainda precisa encontrar condições para desenvolver o projeto, produzir o filme, viabilizar sua circulação, estabelecer conexões e, finalmente, encontrar o público que poderá se relacionar com aquela obra. Quanto mais longe se quer chegar, mais caminhos precisam ser construídos.
Marcus acompanha o desenvolvimento do cinema brasileiro há décadas e, como cineasta, roteirista, produtor, educador e gestor cultural, passou por diferentes partes desse percurso. Ao longo dessa trajetória, foi percebendo que a questão não estava apenas em produzir bons filmes, mas também em criar condições para que mais realizadores pudessem ser conhecidos e suas obras pudessem circular. A pergunta foi se tornando cada vez mais clara: como fazer com que mais diretores brasileiros tenham a oportunidade de ser vistos, aqui e fora daqui? Essa preocupação não nasceu pronta com a Baablon. Foi sendo construída pela experiência, pelos filmes realizados, pelos encontros com o mercado e pela percepção de que existe uma distância entre a quantidade de talento produzido no país e aquilo que efetivamente consegue alcançar determinados espaços de reconhecimento.
Uma produtora começa por uma ideia
Essa percepção também está relacionada à maneira como a Baablon entende seu próprio trabalho. Para a produtora, o ponto de partida de um filme é a ideia de alguém que tem uma história para contar, uma forma particular de olhar para ela e uma razão para querer transformá-la em cinema. A partir daí, começa um processo que envolve roteiro, pesquisa, desenvolvimento, orçamento, financiamento, equipe, planejamento e produção, mas que precisa preservar aquilo que deu origem ao projeto: a visão do diretor.
É nesse espaço entre autoria e produção que a experiência da Baablon foi se formando. Uma produtora pode oferecer estrutura, conhecimento e estratégia para que uma ideia se torne um filme, mas o objetivo é que esse processo dê força à visão de quem criou a obra. Ao longo dos anos, trabalhar com diferentes projetos e realizadores foi mostrando que desenvolver um filme também significa compreender o que existe por trás de uma ideia, quais são suas possibilidades e de que maneira uma estrutura de produção pode ajudar essa ideia a chegar mais longe sem perder sua identidade.
Foi também nesse percurso que a pergunta inicial ganhou outra dimensão. Já não bastava pensar apenas nos filmes que a Baablon poderia produzir. Era preciso olhar para o conjunto de realizadores que estava produzindo cinema no Brasil e perguntar quantos deles permaneciam fora do campo de visão de quem poderia se interessar por seu trabalho. Quantos diretores brasileiros ainda não conhecemos?
The Brazilian Cut
Foi dessa inquietação que surgiu o *The Brazilian Cut*, uma curadoria independente da Baablon dedicada a diretores brasileiros em cuja obra reconhecemos visão autoral, potência cinematográfica e capacidade de dialogar com o mundo. A proposta é reunir realizadores que admiramos e que, em nossa visão, representam parte da força capaz de ampliar a presença das histórias, dos olhares e do cinema brasileiro no cenário internacional.
Os diretores apresentados na plataforma não possuem vínculo profissional, comercial ou de representação com a Baablon. A produtora não atua como agente ou intermediária desses realizadores, e o contato profissional com cada um deles deve ser feito diretamente com o próprio diretor ou com seus representantes. A presença de cada nome no The Brazilian Cut tem outro significado: é uma demonstração pública de que a Baablon viu aquele trabalho, reconheceu nele algo que considera relevante e acredita que ele merece alcançar mais pessoas.
Nesse sentido, o projeto também é uma extensão de uma preocupação que acompanha a trajetória da produtora. Se uma das dificuldades do cinema brasileiro está em fazer com que seus realizadores atravessem determinadas fronteiras de visibilidade, ampliar o acesso a esses nomes pode ser uma pequena, mas concreta, forma de contribuir para essa travessia. O The Brazilian Cut não pretende estabelecer uma lista definitiva dos melhores diretores brasileiros, nem determinar quem deveria ser reconhecido. É uma curadoria que parte de um olhar específico e que pode continuar crescendo à medida que novos realizadores sejam descobertos.
O cinema brasileiro não cabe em poucos nomes
Quando alguns diretores se tornam conhecidos internacionalmente, seus nomes passam a representar, para quem está de fora, uma produção muito maior do que eles próprios. Essa visibilidade é importante e faz parte da história do cinema brasileiro, mas ela também pode criar uma imagem incompleta daquilo que está sendo produzido no país. Enquanto alguns realizadores conseguem ocupar espaços importantes, muitos outros continuam trabalhando, desenvolvendo projetos e construindo suas trajetórias sem necessariamente alcançar os mesmos circuitos de reconhecimento.
Há uma enorme quantidade de histórias sendo pensadas, escritas, filmadas e desenvolvidas no Brasil. Há diretores trabalhando longe dos grandes centros, realizadores com trajetórias consistentes que ainda buscam novas oportunidades de circulação e novos nomes que começam a construir linguagens próprias. Alguns já são conhecidos por seus filmes. Outros ainda precisam que seus trabalhos encontrem quem esteja disposto a olhar.
É nesse espaço que o The Brazilian Cut pretende atuar. A partir da curadoria da Baablon, a plataforma procura apresentar alguns desses realizadores e convidar o público a olhar para além dos nomes que já conhece. Porque ampliar o conhecimento sobre quem faz cinema no Brasil também pode ser uma maneira de ampliar as possibilidades de circulação dessas obras e, principalmente, de reconhecer a diversidade de vozes que compõem o nosso cinema.
Talvez aquela pergunta feita naquele jantar continue sendo uma boa pergunta, mas com uma resposta muito diferente da que foi dada naquela ocasião.
O que mais o Brasil tem para oferecer?
Temos muitos diretores.
E talvez a pergunta que realmente valha a pena fazer agora seja outra:
quantos diretores brasileiros você ainda precisa conhecer?